
Um Ensaio sobre a “Lucidez”
Victor Hugo
Escrever sobre um filme como “Ensaio sobre a Cegueira” não é uma tarefa muito simples, e analisá-lo de maneira totalmente crítica, pode não ser tão justo. Tanto o livro, quanto o filme, são parábolas que transcendem às definições, desde o nome de suas personagens e a época e lugares que vivem, até mesmo à premissa da obra. Do que exatamente fala, “Ensaio sobre a Cegueira?” Talvez a definição mais próxima de alguma verdade seja que, “Cegueira” fala diretamente aos olhos das pessoas, não ao órgão ocular e sim, a visão das pessoas. “Ensaio sobre a Cegueira” é para pessoas que, de alguma forma, querem aprender a enxergar um pouco melhor o mundo.
O filme de Fernando Meirelles (Blindness, 2008, Canadá/Japão/Brasil) foi aguardado ansiosamente por críticos e fãs durante muito tempo. Desde as críticas negativas na abertura de Cannes em 2008, há certa ansiedade em torno da obra do cineasta brasileiro, que é tido como um dos grandes talentos atualmente na Sétima Arte. Aprovado ou não, é fato que o filme de Meirelles alcançou boa parte das salas de cinema do Brasil, inclusive as salas que focam filmes mais comerciais e que nunca abririam espaço para um filme como esse o que comprova a popularidade do cineasta em seu próprio país.
A trama é simples e complexa. Em uma cidade indefinida, uma epidemia de cegueira se alastra sem proporções calculadas e sem motivos aparentes, até o momento em que se subentende que o mundo inteiro foi infectado. Só o fato da ausência de maiores explicações, já revela o conteúdo de parábola que permeia a obra. As personagens não são conhecidas por seus nomes (fato que quem não leu o livro talvez sequer tenha notado), sendo denominados apenas por suas funções sociais ou então por algum tipo de característica da aparência, detalhe que comprova o estudo sobre a visão humana que “Ensaio sobre a Cegueira” propõe.
A estrutura técnica do filme merece muita atenção. Meirelles reproduz o sentido de desorientação das personagens na tela, com diálogos sem sincronia com a imagem que está se vendo, e também a um belo jogo de espelho que muitas vezes valoriza o rosto dos atores através de reflexos. A fotografia consegue reproduzir muito bem o estado de “cegueira branca” do filme, abusando de tons esbranquiçados e aproveitando da própria narrativa para fazer transições de passagem com o clarear da tela (quando o Ladrão do carro fica cego, a cena corta quando um caminhão se aproxima e as luzes dos faróis tomam conta da tela).
No elenco, vale destacar a atuação da grandiosa Juliana Moore, que abraça com o coração uma personagem complexa – a única pessoa que continua a ver depois da epidemia. Para interpretar a personagem que seria os olhos da platéia, vendo toda a degradação que acontece na estória, poucas atrizes teriam a competência dramática de Moore. Mark Ruffalo, Alice Braga e o casal de japoneses também estão muito bem na tela. Personagens com menos tempo de apresentação, como o Velho da Venda Preta e o Menino Estrábico, não comprometem e a atuação de Gael Garcia Bernal merece um destaque pela improvisação cômica da imitação de Stevie Wonder, que rendeu a bagatela de U$ 50.000,00 da produção.
“Ensaio Sobre a Cegueira” é com certeza um filme que vai dividir o público. Muitos sairão insatisfeitos pela falta de explicações da obra. Porém, é impossível acusar a obra de não-fiel. O filme de Fernando Meirelles parece ter a mesma alma do livro de Saramago, tanto que o autor se emocionou ao assistir a pré-estréia do filme. Aliás, o diretor demonstra controle total da obra, e impressiona pelas imagens devastadoras de uma São Paulo digna dos filmes de zumbi apocalípticos. Há um detalhe digno de uma pequena observação: em meio a todo o caos encontrado nas ruas, o cão que passa a acompanhar as personagens soa como uma espécie de conforto. A construção da cena em que o canino aparece, é bela e inteligente, ao mostrar um grupo de caos esfomeados comendo um ser humano, e o cão descendo as mesmas escadas. O cão é de fato “bonito”, e isso não soa clichê, mas sim como um suspiro de alívio ao espectador.
“Somente num mundo de cegos, as coisas seriam realmente como são”. Não se sabe de fato se a cegueira é uma maldição ou uma benção, e só isso já dá brecha a uma discussão sobre as possíveis interpretações do filme – e do livro. O que se pode dizer, por fim, é que “Ensaio sobre a Cegueira” é uma pequena fábula sobre a maneira que os homens olham a vida, uma fábula “branca”, assim como a cegueira. É uma pequena oportunidade de se refletir sobre a nossa maneira de ver o mundo, de ver as pessoas e de ver a vida, e como toda boa reflexão, nós mesmos temos que buscar as respostas que o filme não dá.
O filme de Fernando Meirelles (Blindness, 2008, Canadá/Japão/Brasil) foi aguardado ansiosamente por críticos e fãs durante muito tempo. Desde as críticas negativas na abertura de Cannes em 2008, há certa ansiedade em torno da obra do cineasta brasileiro, que é tido como um dos grandes talentos atualmente na Sétima Arte. Aprovado ou não, é fato que o filme de Meirelles alcançou boa parte das salas de cinema do Brasil, inclusive as salas que focam filmes mais comerciais e que nunca abririam espaço para um filme como esse o que comprova a popularidade do cineasta em seu próprio país.
A trama é simples e complexa. Em uma cidade indefinida, uma epidemia de cegueira se alastra sem proporções calculadas e sem motivos aparentes, até o momento em que se subentende que o mundo inteiro foi infectado. Só o fato da ausência de maiores explicações, já revela o conteúdo de parábola que permeia a obra. As personagens não são conhecidas por seus nomes (fato que quem não leu o livro talvez sequer tenha notado), sendo denominados apenas por suas funções sociais ou então por algum tipo de característica da aparência, detalhe que comprova o estudo sobre a visão humana que “Ensaio sobre a Cegueira” propõe.
A estrutura técnica do filme merece muita atenção. Meirelles reproduz o sentido de desorientação das personagens na tela, com diálogos sem sincronia com a imagem que está se vendo, e também a um belo jogo de espelho que muitas vezes valoriza o rosto dos atores através de reflexos. A fotografia consegue reproduzir muito bem o estado de “cegueira branca” do filme, abusando de tons esbranquiçados e aproveitando da própria narrativa para fazer transições de passagem com o clarear da tela (quando o Ladrão do carro fica cego, a cena corta quando um caminhão se aproxima e as luzes dos faróis tomam conta da tela).
No elenco, vale destacar a atuação da grandiosa Juliana Moore, que abraça com o coração uma personagem complexa – a única pessoa que continua a ver depois da epidemia. Para interpretar a personagem que seria os olhos da platéia, vendo toda a degradação que acontece na estória, poucas atrizes teriam a competência dramática de Moore. Mark Ruffalo, Alice Braga e o casal de japoneses também estão muito bem na tela. Personagens com menos tempo de apresentação, como o Velho da Venda Preta e o Menino Estrábico, não comprometem e a atuação de Gael Garcia Bernal merece um destaque pela improvisação cômica da imitação de Stevie Wonder, que rendeu a bagatela de U$ 50.000,00 da produção.
“Ensaio Sobre a Cegueira” é com certeza um filme que vai dividir o público. Muitos sairão insatisfeitos pela falta de explicações da obra. Porém, é impossível acusar a obra de não-fiel. O filme de Fernando Meirelles parece ter a mesma alma do livro de Saramago, tanto que o autor se emocionou ao assistir a pré-estréia do filme. Aliás, o diretor demonstra controle total da obra, e impressiona pelas imagens devastadoras de uma São Paulo digna dos filmes de zumbi apocalípticos. Há um detalhe digno de uma pequena observação: em meio a todo o caos encontrado nas ruas, o cão que passa a acompanhar as personagens soa como uma espécie de conforto. A construção da cena em que o canino aparece, é bela e inteligente, ao mostrar um grupo de caos esfomeados comendo um ser humano, e o cão descendo as mesmas escadas. O cão é de fato “bonito”, e isso não soa clichê, mas sim como um suspiro de alívio ao espectador.
“Somente num mundo de cegos, as coisas seriam realmente como são”. Não se sabe de fato se a cegueira é uma maldição ou uma benção, e só isso já dá brecha a uma discussão sobre as possíveis interpretações do filme – e do livro. O que se pode dizer, por fim, é que “Ensaio sobre a Cegueira” é uma pequena fábula sobre a maneira que os homens olham a vida, uma fábula “branca”, assim como a cegueira. É uma pequena oportunidade de se refletir sobre a nossa maneira de ver o mundo, de ver as pessoas e de ver a vida, e como toda boa reflexão, nós mesmos temos que buscar as respostas que o filme não dá.
2 comentários:
Eu sou muito cética quando se trata de adaptações de livros que eu gosto, mas realmente não tem como reclamar.
O roteiro é bem fiel ao livro, e as poucas mudanças parecem que se encaixam melhor na históra...
E a fotografia do Charlone realmente é uma coisa à parte do filme, é praticamente mais um personagem e faz com que todos se aproximem do "total estado de cegueira".
Arrasou na sua estréia no blog hein??
parabéns,adorei!!
Seja bem-vindo!
Além de cineasta é escritor!!hehehe
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